Todo protótipo de IA funciona. Ele funciona porque quem construiu escolheu as perguntas, sabe onde não apertar e está presente quando alguém demonstra.

Produção é o contrário disso: perguntas que ninguém escolheu, usuários que apertam onde dói e ninguém olhando às três da manhã. Esta é a lista que a gente usa para atravessar essa fronteira — trinta itens, em seis áreas.

💡 Como usar

Não é para fazer tudo antes de subir. É para saber conscientemente o que você está deixando para depois. Um item pulado de propósito é uma decisão; um item pulado por esquecimento é um incidente esperando data.

Qualidade — cinco itens

  1. Existe um conjunto de 30+ casos reais com resposta esperada, versionado junto com o código. Sem isso, nada abaixo importa.
  2. A pontuação atual está registrada e é rodada a cada mudança de prompt ou modelo.
  3. Há casos sem resposta possível no conjunto, e o sistema diz "não sei" neles.
  4. O prompt é versionado e a versão vai gravada em cada chamada.
  5. A temperatura está definida por fluxo — zero onde precisa ser reprodutível, maior só onde variedade é desejável.

Custo — cinco itens

  1. Tokens de entrada e saída são registrados por chamada, com fluxo e usuário.
  2. Existe teto de gasto por usuário e por dia, aplicado em código — não só monitorado.
  3. O histórico da conversa tem janela. Contexto que cresce para sempre é o vazamento número um.
  4. Cada fluxo usa o modelo mais barato que resolve, não o mais capaz por padrão.
  5. Existe alarme de custo diário anômalo — 2× a média da semana dispara aviso.
⚠️ O item 7 é o que evita a conta absurda

Um agente em ciclo, um cliente integrando de forma ineficiente ou um bug de repetição podem multiplicar o consumo em horas. Monitorar avisa depois; teto em código impede.

Ponha o teto mesmo que pareça exagero para o volume atual. Ele só existe para o dia em que algo der errado.

Latência — quatro itens

  1. A transmissão contínua está ligada em tudo que tem pessoa esperando.
  2. TTFT e duração são medidos e você olha o percentil 95, não a média.
  3. Há tempo limite em toda chamada externa, com mensagem clara ao usuário quando estourar.
  4. As etapas anteriores à geração mostram progresso — buscar documentos, consultar sistema. Percepção é metade da latência.

Segurança — seis itens

  1. O modelo não executa nada. Ele propõe; o código valida permissão, limite e estado antes de qualquer efeito.
  2. Ações irreversíveis passam por confirmação humana, com teto de valor definido.
  3. A saída é inspecionada antes de chegar ao usuário, com regra para as frases que a empresa não pode dizer.
  4. Links e imagens externos são removidos da resposta — a defesa contra exfiltração silenciosa.
  5. Dados sensíveis são mascarados na entrada e nunca gravados em registro nem em traço de erro.
  6. Conteúdo de terceiro é tratado como dado, nunca como instrução, e a sessão que o lê não executa ação sensível.

Operação — seis itens

  1. Toda chamada é registrada com modelo, versão de prompt, documentos recuperados, custo e duração. Uma tabela, dez colunas.
  2. Existe prazo de retenção para o texto registrado, com apagamento automático.
  3. Há caminho alternativo quando o provedor falhar — outro modelo, outra rota ou degradação explícita.
  4. As chaves estão em cofre, não em código nem em variável commitada.
  5. Máquinas de GPU desligam sozinhas ao fim do trabalho, com trap no script, e há alarme de máquina viva há tempo demais.
  6. Alguém recebe os alarmes — e essa pessoa sabe o que fazer com cada um.

Produto — quatro itens

  1. O usuário sabe que está falando com IA. Não é só ética: muda a expectativa e reduz reclamação.
  2. Existe saída para humano, visível, sem precisar implorar. Sistema sem essa saída gera raiva desproporcional ao erro.
  3. Há coleta de sinal de qualidade — explícita em amostra, implícita em 100% (pergunta refeita, conversa abandonada, pedido de atendente).
  4. Os limites estão declarados: o que o sistema não faz, sobre o que não opina, quando ele erra. Expectativa alinhada é metade da satisfação.

Se você só puder fazer cinco

Em ordem de retorno, para quem precisa subir na semana que vem:

#ItemEsforçoO que evita
1Conjunto de 30 casos com pontuaçãoMeio diaRegressão invisível a cada mudança
2Registro completo por chamadaMeio dia"Não temos como verificar"
3Teto de gasto em código2 horasA conta de cinco dígitos no fim de semana
4Modelo não executa nada1 diaO incidente que vira caso jurídico
5Transmissão contínua ligada2 horasA percepção de sistema travado

Dois dias e meio de trabalho cobrem a maior parte do risco real. O resto pode ser feito com o sistema no ar, na ordem que a operação for pedindo.

GPU por hora e API por token, no mesmo saldo

Cobrança em reais, sem assinatura e sem mínimo — você começa pequeno, mede e cresce conforme o uso justificar.

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Os três erros de projeto que a lista não pega

Vale dizer, porque nenhum item acima protege contra eles:

Automatizar o processo errado. Se o processo atual é ruim, automatizá-lo com IA produz um processo ruim mais rápido. Vale desenhar o fluxo antes de escolher o modelo.

Prometer autonomia total cedo demais. Sistemas de IA entregam muito valor como copiloto e muito risco como piloto automático. Comece assistindo a pessoa; migre para autonomia só nos casos em que a taxa de acerto medida justificar.

Tratar como projeto, não como produto. Modelo muda, preço muda, o uso muda e o conjunto de avaliação envelhece. Aplicação de IA precisa de alguém responsável de forma contínua — não de uma entrega e um encerramento.

Conclusão

A distância entre protótipo e produção não é de tecnologia; é de disciplina. Trinta itens, e os cinco primeiros valem mais que os outros vinte e cinco juntos.

Se o seu sistema tem avaliação, registro, teto de gasto, separação entre propor e executar e transmissão contínua ligada, ele já está à frente da maioria dos que estão no ar hoje. O resto você acrescenta com o produto rodando — e agora sabendo o que está deixando para depois.

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